Há algo profundamente revelador quando se observa a geografia do indignar-se no Ocidente. Gaza lotou avenidas de Londres a Sydney, a Ucrânia pintou prédios públicos de azul e amarelo em capitais onde ninguém sabia apontar Kiev no mapa três anos atrás, mas o Irã, bombardeado, sancionado, cercado por frotas e ameaçado diariamente por oficiais que tratam oitenta e cinco milhões de pessoas como alvos dentro de uma planilha do Pentágono, recebe apenas o constrangido silêncio de quem prefere não se envolver. A explicação oficial fala em fadiga, em desilusão, em medo das leis antiterrorismo. A explicação real é mais prosaica: protesto contra guerra só floresce quando há patrocinador disposto a bancar o aluguel do megafone.
Observe o mecanismo com frieza clínica. As mesmas ONGs que mobilizaram acampamentos universitários contra Israel recebem verba de fundações cujos conselhos incluem executivos de empresas de energia. As mesmas redes sociais que amplificaram bandeiras ucranianas até a exaustão aplicam agora algoritmos que enterram qualquer conteúdo simpático a Teerã sob o rótulo preguiçoso de desinformação estrangeira. Os sindicatos europeus que pararam portos em solidariedade a Gaza descobriram subitamente que o Irã é um regime teocrático, como se essa informação fosse novidade depois de quarenta e cinco anos. A indignação funciona por contrato, e o contrato do Irã foi assinado há décadas em Washington, em Londres, em Tel Aviv, com cláusulas que proíbem empatia pública sob pena de cancelamento profissional.
Siga o cheiro do petróleo e você encontrará o cadáver da compaixão. O Estreito de Ormuz movimenta vinte por cento do consumo global de energia, e qualquer instabilidade nessa faixa de água faz o preço do barril dançar em favor de Houston, Riad e dos fundos de hedge que especulam com contratos futuros. A indústria de defesa americana fechou, nos últimos dezoito meses, pacotes de armamento com Arábia Saudita, Emirados e Catar que ultrapassam cifras obscenas, pacotes cuja justificativa formal é exatamente a ameaça iraniana. Sem Irã como inimigo, o Golfo deixa de ser cliente. Um movimento antiguerra eficaz contra Teerã custaria bilhões aos acionistas de Lockheed, Raytheon e General Dynamics, e por isso não existe, nem existirá, nem é permitido que exista.
Há também a questão, deliciosa em sua hipocrisia, da legislação de emergência. Na Inglaterra, apoiar publicamente um grupo que questione o bombardeio a uma instalação iraniana pode render prisão sob o guarda-chuva convenientemente vago das leis antiterrorismo. Na Alemanha, manifestantes já foram detidos por exibir bandeiras consideradas simpáticas ao inimigo. Nos Estados Unidos, universidades ameaçam expulsar estudantes que organizem vigílias pela população civil de Teerã, invocando cláusulas de conduta que, curiosamente, jamais se aplicaram quando o tema era a Ucrânia. O direito de protestar, aquela relíquia que os governos juram defender em discursos de aniversário, evapora assim que o protesto começa a contrariar o cronograma do complexo militar. A liberdade de expressão é generosa com as causas aprovadas, severa com as inconvenientes.
E existe, por fim, o fator mais humilhante: a opinião pública ocidental foi treinada, ao longo de duas gerações, a ver o Irã como monstro abstrato. Filme após filme, manchete após manchete, relatório após relatório, oitenta e cinco milhões de seres humanos foram reduzidos a uma caricatura de turbante, bomba e punho fechado. O padeiro de Isfahan não existe no imaginário londrino. A estudante de engenharia de Xiraz não existe no imaginário nova-iorquino. A família de agricultores de Tabriz que perderá tudo quando os mísseis caírem é, para o consumidor médio de notícias, uma estatística prévia sem rosto. Protestar por rostos invisíveis exige um esforço intelectual que a mídia subsidiada pelo Estado trabalhou incansavelmente para tornar impossível.
A história conhece bem esse silêncio. Houve silêncio antes da invasão do Iraque em 2003, e descobrimos depois que as armas de destruição em massa eram tão reais quanto o papai noel, enquanto um milhão de pessoas morriam e a Halliburton faturava oitenta bilhões de dólares. Houve silêncio antes da Líbia em 2011, e descobrimos depois que o país virou mercado aberto de escravos enquanto reservas de ouro líbias mudavam discretamente de mão. Houve silêncio antes do Afeganistão, da Síria, da Somália, do Iêmen. Cada silêncio teve seu preço, cada preço foi pago por alguém que nunca viu um centavo do lucro. A lição é sempre a mesma e nunca é aprendida: quando as ruas ficam caladas, os cemitérios se enchem. E quem encomendou o silêncio já está jantando em restaurante com vista para o rio, brindando ao próximo trimestre.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.