São Jorge nunca pisou na Inglaterra. Nasceu por volta de 280 na Capadócia, hoje território turco, filho de pai grego e mãe natural de Lida, cidade hoje reivindicada simultaneamente por israelenses e palestinos. Seu túmulo fica em Lod, na Cisjordânia histórica, onde cristãos palestinos o cultuam há dezessete séculos com a mesma devoção que os cruzados levaram para Londres no século XII. O detalhe é delicioso: os militantes do Britain First, que marcharam em Manchester com a cruz vermelha em campo branco, estavam homenageando um mártir que, se vivo hoje, seria provavelmente barrado na imigração de Heathrow por portar passaporte do lugar errado.
A história das identidades nacionais é uma longa coleção de apropriações convenientes. O padroeiro da Inglaterra foi, na prática, um soldado romano executado por Diocleciano por se recusar a perseguir cristãos. Tornou-se símbolo inglês por decreto de Eduardo III, que precisava de um ícone marcial para galvanizar a Guerra dos Cem Anos contra a França. A cruz de São Jorge foi, portanto, uma ferramenta de mobilização militar, igual a tantas outras bandeiras içadas sobre cadáveres desde então. O santo morto era útil porque não podia protestar contra o uso que faziam dele.
O fenômeno Britain First não opera no vácuo. Movimentos identitários floresceram em solo britânico à medida que o custo de vida ruiu, a inflação corroeu salários reais e as políticas migratórias foram terceirizadas para burocracias de Bruxelas e depois recapturadas por burocracias de Londres, sempre com o mesmo resultado: o trabalhador britânico comum paga imposto para financiar guerras em lugares que não consegue apontar no mapa, enquanto vê seu bairro deteriorar. A raiva é real, o diagnóstico está errado. Não foi o refugiado sírio quem resgatou bancos em 2008 com dinheiro público. Não foi o entregador paquistanês quem bombardeou Trípoli para derrubar Kadafi e criar a rota migratória que hoje enche o Canal da Mancha de botes. Os arquitetos dessas catástrofes moram em Kensington, não em Rochdale.
A indignação popular, no entanto, é mercadoria valiosa. Partidos e movimentos sabem que o ressentimento vende melhor que a análise. É mais fácil organizar uma marcha contra o refugiado visível do que contra o contrato de armas invisível que criou o refugiado. A Arábia Saudita compra bilhões em armamento britânico, bombardeia o Iêmen, gera a maior crise humanitária do século, e nenhum manifestante em Manchester agita bandeira contra o fabricante. BAE Systems dorme tranquila. Os acionistas da Lockheed Martin britânica agradecem a distração. Quando o povo discute a cor da pele do vizinho, ninguém discute de onde vêm os dividendos do trimestre.
Há uma simetria cruel no fato de que a cruz de São Jorge também tremula sobre igrejas em Beit Jala, em Belém, em Nazaré. Os cristãos palestinos, minoria asfixiada entre bombardeios israelenses e marginalização islâmica, celebram o mesmo santo que os marchantes de Manchester usam como totem contra tudo que é estrangeiro. Jorge pertence a todos e a ninguém, como todo mito útil. O que muda é quem segura a bandeira e quem lucra com o sangue derramado sob ela. No fim, o santo da Capadócia segue morto, o trabalhador britânico segue quebrado, o palestino segue sem casa, e o negociante de armas segue vendendo.
A história não se repete, rima. E rima mal, sempre cobrando o mesmo pedágio do mesmo bolso.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.