O discurso de ódio contra muçulmanos, cristãos e dalits explodiu na Índia no último ano, e a resposta do braço ideológico que sustenta o governo de Nova Délhi não foi conter os linchamentos, fechar as milícias de bairro ou pedir desculpas às viúvas. Foi alugar lobistas em Washington, Londres e Bruxelas. A coreografia é tão velha quanto previsível, e revela o cinismo essencial de qualquer movimento que se autodescreve como guardião cultural enquanto opera como máquina de captura estatal. Quando a violência doméstica começa a ameaçar contratos de defesa, acordos comerciais e visitas oficiais, a prioridade deixa de ser o cidadão indiano massacrado na rua e passa a ser o congressista americano que precisa ser convencido de que tudo aquilo é exagero da imprensa estrangeira.
Não há mistério no método. A organização em questão controla, através de tentáculos partidários, o aparelho de Estado mais populoso do planeta, e esse aparelho compra de tudo, desde caças franceses até semicondutores americanos, passando por reatores nucleares russos e drones israelenses. Cada um desses contratos vale mais que o PIB de muitos países africanos. Manter a torneira aberta exige que os fornecedores ocidentais consigam, diante de seus próprios parlamentos, jurar de pés juntos que estão negociando com uma democracia vibrante, não com um regime que tolera o espancamento sistemático de minorias religiosas. O lobby existe para fabricar essa fábula plausível. A diáspora indiana abastada, devidamente cooptada, aparece em jantares de gala, financia cadeiras universitárias, patrocina relatórios de think tanks e, quando necessário, ameaça boicotar candidatos que insistirem em mencionar Gujarat 2002 ou Manipur 2023.
A operação tem precedente histórico riquíssimo, e nenhum dele honroso. Regimes autoritários sempre entenderam que a opinião pública das capitais ocidentais é uma commodity como qualquer outra, comprável por atacado. A Turquia faz isso há décadas para neutralizar críticas sobre o genocídio armênio. A Arábia Saudita transformou universidades inteiras em filiais de relações-públicas após o esquartejamento de um jornalista. A China financia institutos de língua mandarim em troca de silêncio sobre Xinjiang. O Catar bancou copas do mundo enteiras para que ninguém olhasse seus canteiros de obras movidos a trabalho escravo. O método indiano é variação sobre o mesmo tema: paga-se em Washington para que se possa continuar batendo em Lucknow.
O fato concreto é que o discurso de ódio quantificado por monitoramentos independentes saltou de patamar no ano passado, com aumentos de dois dígitos em incidentes contra cristãos e muçulmanos, e que a maior parte desses ataques ocorre em estados governados pelo partido que orbita exatamente em torno da organização agora preocupada com sua imagem internacional. Não é coincidência, é cadeia causal. Primeiro se constrói o inimigo interno através de décadas de doutrinação em escolas paralelas, campos de treinamento e propaganda televisiva. Depois se eleva esse inimigo à condição de ameaça existencial. Em seguida, libera-se a turba. Por fim, quando os cadáveres começam a aparecer em vídeos que viajam pelo WhatsApp global, contrata-se uma firma de comunicação em Massachusetts Avenue para explicar aos senadores americanos que aquilo é tensão comunitária ancestral, coisa que estrangeiro não entende.
Quem paga a conta dessa pantomima é, como sempre, o sujeito que não tem voz em nenhuma das pontas. O comerciante muçulmano que vê sua loja queimar enquanto a polícia assiste de braços cruzados. O pastor evangélico de aldeia que é espancado por rezar em sua própria casa. O dalit que apanha por ousar montar um cavalo no dia do próprio casamento. A indiana de classe trabalhadora cujos impostos sustentam tanto o aparelho que a oprime quanto o lobista que viaja em primeira classe para mentir sobre essa opressão. O lobby internacional não existe para protegê-la, existe para garantir que ninguém lá fora se importe o suficiente a ponto de interromper o fluxo de armamentos, investimentos e legitimidade diplomática que mantém a engrenagem girando.
A lição, válida para qualquer geografia, é que nenhum regime gasta milhões em relações-públicas quando tem a consciência tranquila. A intensidade do esforço de comunicação é diretamente proporcional ao tamanho do esqueleto no armário. Quando uma organização que se autoproclama defensora de uma civilização milenar precisa contratar consultores ocidentais para explicar suas próprias ações, a civilização já foi vendida; o que está em jogo é apenas o preço. E o preço, evidentemente, será cobrado dos mesmos de sempre: aqueles cujo único pecado é estar do lado errado da estatística no país errado, na década errada da história.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.