O episódio é digno de novela palaciana, e por isso mesmo merece bisturi. Segundo a reportagem do diário financeiro de Londres, em conversa reservada com o ocupante da Casa Branca, o mandachuva de Pequim teria deixado escapar que o czar do Kremlin pode vir a se arrepender da aventura ucraniana. Note bem o verbo: pode. Não disse que errou, não disse que é injusta, não disse que é ilegal. Disse que pode dar prejuízo. E aí está, em uma única conjugação, toda a moral da diplomacia entre regimes que tratam povos como peças de tabuleiro: o critério não é certo ou errado, é lucro ou perda.

Quem paga e quem recebe nessa história? Os russos comuns pagam com filhos enterrados em estepes congeladas e com o rublo que derrete na padaria. Os ucranianos pagam com cidades reduzidas a esqueletos de concreto. As classes médias europeias pagam com a conta do gás triplicada e com a indústria alemã agonizando. Os americanos pagam via cofre do Tesouro convertido em armamento, com cada contribuinte de Iowa financiando, sem ter pedido licença a ninguém, um conflito do outro lado do planeta. E quem recebe? As fundições de tanques em Detroit, os fabricantes de drones em Israel, os exportadores de petróleo de xisto no Texas, os intermediários chineses que compram cru russo pela metade do preço e revendem refinado pelo dobro. Cadáver do lado de cá, balanço trimestral do lado de lá.

O detalhe saboroso é a posição do dragão asiático nessa pantomima. Há três anos a propaganda oficial vendia a tal "amizade sem limites" entre os dois autocratas, abraço de urso encenado para câmeras com fundo de bandeiras vermelhas. Pois bem, os limites apareceram, e tinham nome de planilha. O parceiro siberiano virou refém comercial, vende energia a preço de saldão, importa eletrônicos chineses sem poder reclamar e financia, sem saber, a ascensão tecnológica do vizinho que um dia herdará a Sibéria pelo simples método demográfico. Aliança entre lobos sempre termina assim: um come o outro quando a caça escasseia, e finge que foi tudo combinado desde o início.

Há aqui uma lição que se repete desde os tempos em que mercadores fenícios vendiam armas para os dois lados da mesma guerra: regime que monopoliza a força interna invariavelmente miscalcula a força externa, porque ninguém em volta tem coragem de dizer ao chefe que a conta não fecha. O autocrata enfia o país numa empreitada baseada em relatórios bajuladores, queima reservas, queima jovens, queima credibilidade, e só descobre o tamanho do buraco quando o aliado mais próximo começa a falar dele no pretérito imperfeito para uma terceira potência. Se uma coisa anda, late e morde como traição, geralmente é traição, ainda que vestida com o cetim do "realismo geopolítico".

O mais cômico é o coro de analistas de televisão tratando o episódio como reviravolta inesperada, como se a história não fosse um catálogo de exatamente este enredo. Toda coalizão entre Estados expansionistas é provisória pela natureza mesma do bicho: quem aceita esmagar o vizinho hoje aceitará ser esmagado amanhã, basta mudar a conjuntura de preços. O que se chama de geopolítica multipolar não passa, no fundo, do velho jogo de cartel em que os sócios se vigiam de soslaio enquanto sorriem para o fotógrafo. E o cidadão pagador de imposto, esse personagem invisível e perene, continua sendo a única commodity que nunca falta na mesa de negociação.

Resta a pergunta inicial, que é também a final, porque é a única que importa: quem paga e quem recebe? Pagam os que sangram, os que produzem, os que poupam, os que veem seu dinheiro derreter em inflação de guerra. Recebem os que decidem em salas fechadas, os que vendem armas, os que vendem energia, os que vendem narrativa. O resto é poesia para os crédulos, e cabe a nós, modestamente, apontar o rei nu e rir antes que os cortesãos percebam.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.