Há algo de patético e ao mesmo tempo revelador na turnê de Zelensky pelas monarquias do Golfo. O homem que durante quatro anos foi tratado como o novo Churchill por chancelarias ocidentais agora bate na porta dos sauditas, dos emiradenses, dos qataris, oferecendo o que sobrou no estoque, drones de fabricação caseira, doutrina de trincheira e a promessa generosa de transformar o deserto árabe em laboratório de guerra urbana. O problema é que os compradores em potencial já fizeram a conta, e a conta deu prejuízo. Ninguém investe num negócio cujo dono perde território todo trimestre.

A ironia é que o Oriente Médio sempre foi a vitrine perfeita de como o Ocidente trata aliados quando o petróleo seca ou a geopolítica vira. Os xeques não esqueceram do Xá do Irã abandonado em 1979, do Saddam armado nos anos oitenta e bombardeado nos noventa, do Mubarak descartado em 2011, do Kadafi linchado depois de entregar o programa nuclear em troca de aperto de mão. Quem sobreviveu nessa região aprendeu a ler nas entrelinhas dos discursos sobre democracia e soberania. Riad e Abu Dhabi olham para Kiev e veem exatamente o que serão os próximos parágrafos do mesmo livro, o aliado útil até o dia em que deixa de ser útil.

Siga o dinheiro e a peregrinação faz sentido imediato. A Europa já gastou centenas de bilhões e começa a perceber que cada dólar enviado a Kiev volta para os cofres da Lockheed, da Raytheon, da Rheinmetall, mas não volta como vitória militar, volta como estoque consumido que precisa ser repassado ao contribuinte alemão, francês, italiano. Washington corta repasses, Bruxelas inventa criatividade contábil para esconder a fadiga, e Zelensky precisa de caixa novo. O Golfo é o último cofre líquido do planeta. Mas árabe não é europeu envergonhado, árabe negocia barril por barril, e a guerra ucraniana não vale um único contrato de longo prazo de gás natural liquefeito.

Há ainda a camada que ninguém comenta nos jornais, a normalização silenciosa entre Riad e Moscou no âmbito da OPEP+. Os sauditas coordenam corte de produção com os russos há anos, ganharam dinheiro juntos durante toda a guerra, e não pretendem queimar essa relação por simpatia ao homem do moletom verde. O mesmo vale para os Emirados, que viraram porto seguro para capital russo deslocado pelas sanções, e para o Qatar, que vende gás para a Europa exatamente porque o gás russo foi expulso do mercado. Cada uma dessas potências regionais lucra com a continuidade da guerra, não com a vitória ucraniana. A paz mata o spread.

O que se assiste, portanto, é o crepúsculo previsível de um produto cuja embalagem o marketing global vendeu por tempo demais. A propaganda construiu um herói, transformou a bandeira azul e amarela em mercadoria virtual, encheu estádios e cerimônias do Oscar de discursos lacrimosos, e agora descobre que o consumidor árabe não comprou o conceito. Enquanto isso, no chão da guerra, o conscrito ucraniano de quarenta anos arrastado para a trincheira por recrutadores armados continua morrendo pelo oleoduto que outros vão administrar, pelo grão que outros vão exportar, pela reconstrução que fundos americanos já estão precificando em planilhas de Manhattan.

O que Zelensky descobre tarde demais é uma lição que toda capital pequena deveria ter tatuada na entrada do palácio presidencial, ninguém vai à guerra para defender você, vão à guerra para vender algo, e quando o estoque acaba, você vira o estoque. Os xeques entenderam isso há cinquenta anos. Kiev ainda está aprendendo, ao custo de uma geração inteira de jovens que nunca verão o lucro de quem assinou os contratos.

Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.